23 de nov de 2011

ESPANTO

NINO BELLIENY

ESPANTO
Quando falou, a voz saiu tão firme, que ele mesmo estranhou, achando ser outra pessoa, um espírito de liberdade e convicção dominando o corpo pequeno e esquálido, daqueles que nunca frequentaram uma academia ou praticaram uma arte marcial qualquer. Mas, neste instante varonil, precisou ser homem e corajoso, forte e impávido colosso cheio de energia e vontade. A arma caiu-lhe às mãos como um presente e diria ser de um anjo, não fosse letal. Um anjo do inferno talvez, deixando-lhe livre e disposto a apertar o gatilho e desfazer-se do que tanto o incomodou.
ESTAVA
Encostado ao último poste da rua semi-escura da casa da namorada, quando um sujeito forte, surgiu relâmpago, lhe cutucando a nuca com aquela coisa de cano prateado, a primeira que lê viu em toda sua vida a não ser nas telas do Cine Goitacá e na Sessão Coruja. Viu pelos cantos dos olhos e lentamente virou-se ao comando da sombra que o assaltava em voz baixa e gutural: ”passa o relógio,a carteira, tudo!”. Ao invés de temer e tremer como um fio de telefone na ventania, permaneceu tão calmo que isso sim, o assustou. Não imaginava reagir distante, como se estivesse vendo uma cena e não participando dela. O assaltante, senhor de si, experiente de outras operações semelhantes, carteira assinada há tanto tempo pelo crime, não estranhou, pensou apenas que era mais um otário metido a valente. E engatilhou a máquina.
O CLIQUE
Não foi capaz de intimidá-lo ou forçar a pedir clemência. Antes de qualquer reação ou atitude que desfizesse toda a coragem inesperada e demonstrada até ali, o rapaz fraco de corpo percebeu uma hesitação, um risco de olhar enviesado, uma vertigem sobrevoando o bandido. A voz esganiçada,as pernas bambeando e o gigantesco homem desabando com a boca produzindo baba em grande quantidade,se estrebuchando no piso irregular da calçada.
EPILEPSIA
Os anos trabalhando em posto de saúde fizeram–no reconhecer o caso. A arma prateada escorregou das mãos do epiléptico e foi mansamente até às suas mãos. E durante milésimos de segundos, só pensou em apontar e atirar em quem minutos antes iria mandá-lo para terreno sagrado do invisível. Instantes antes, ele seria o defunto. Agora, o Anjo Vingador, a justiça rápida e inflexível. Calculou o impacto ...a cabeça espumante do inimigo gratuito sob a alça de mira em breve seria uma massa vermelha no cimento e a epilepsia teria cura e a doença do mal e todos os assaltos antes e assassinatos correlatos seriam justiçados.
BASTARIA
Apertar suave e firmemente. Iria para casa sem remorsos e uma pistola nas mãos para vender depois por um qualquer.
FOI QUANDO
Entendeu que seria pior do que aquele a quem considerava um animal caído, uma fera prestes a ser abatida. Eliminaria um monstro e passaria a carregar outro dentro de si. Um monstro capaz de ressurgir a qualquer momento, bastasse ser contrariado ou pensar ser capaz de justiçar os que o curto braço da lei não alcançava.
PREFERIU
Telefonar para a polícia,deixar a arma descarregada sobre o corpo, prestar o socorro que sabia como e sentar-se no meio-fio enquanto policiais e ambulância não chegavam foi o que fez. Apenas a consciência flutuando como uma bolha de sabão lhe dizia que tinha sido o certo. Além da vida renovada e coberta pelas asas de uma anjo...um anjo do Bem.

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